Verba Legis 2024

Ações do Tribunal

 

Por que escrevo

Nota 01

 por Elizabeth Abreu Caldeira Brito Nota 02

 

Santo Agostinho, dentre seus legados de ensinamentos, nos orienta com relação à palavra. Defende que o destemor frente a ela pode salvar o homem da ignorância e conceder-lhe voz. Afirma que devemos acreditar no verbo, pois ele é santo e salva. Postula que os seres devem crer na elocução salvadora. Apregoa, ainda, que devemos confiar na força da palavra, mesmo que seja vagarosa a sua abordagem, e tardio o seu descobrimento. Declara o seu amor no poema: "Tarde te amei,/beleza sempre antiga e sempre nova, tarde te amei." (AGOSTINHO, 1987, p.102). Sendo assim, sinto-me imbuída a vestir a camisa dos vocábulos, tomar e domar a voz da palavra para dizê-la ao mundo, nos caminhos que trilho e onde minha voz possa alcançar.

Acredito nas premissas de Santo Agostinho, na palavra que liberta, na pluralidade da fala e na possível permanência; por isso dedico-me a escrever. Cultivo a escritura por acreditar na duração; na palavra capaz de conduzir o indivíduo em sua unicidade, transportando-o da simplicidade do agora, para a eternidade de ser. Escrevo por confiar na palavra que pode transformar o homem em um ser consciente se si, de sua inteligência, de sua capacidade transformadora e de sua ação na humanidade. Acredito, ainda, na possibilidade da palavra de proporcionar ao leitor o aceso aos mistérios e aos objetos e objetivos do universo, cuja composição hermética, impregnada de (in)certezas, pode ser mais vivenciada, mais elaborada àqueles que, por meio da palavra, filosofa a vida e formula questões, indagações e prováveis respostas que a arte propicia e instiga.

Neste sentido, Lefreve nos assevera, em Estrutura do discurso da poesia e da narrativa, (1980, p.121), que uma obra "abre-se sobre a totalidade do mundo, mas o que ela visa não é uma explicação: será, antes, uma tomada de consciência relativamente ao próprio ser das coisas: uma interrogação." (LEFREVE, 1980, p.121). Portanto, a obra, quando enfoca e abarca o mundo, não carrega o pejo de apresentar respostas. Ela Suscita questões e questionamentos acerca da vida e do universo em que está imersa.

Nesta perspectiva, devemos considerar que para a produção de uma obra literária, é necessário ensimesmar-se e examinar as profundidades de onde jorra a vida. Na fonte desta é que o escritor encontrará a resposta à questão de saber se deve ou não produzir sua literatura. Ao criador é necessário mergulhar e, ao emergir de seu molde arrancar e extrair a vida para fora de si, levando-a ao encontro do outro, nos ventos, sopros e tempestades de suas palavras.

Acredito na capacidade do autor em traduzir urdiduras vividas ou imaginadas, para expor suas conjecturas à folha em branco, que (a)guarda palavras. Ao escritor cabe exibir, para a eternidade, efêmeros diálogos da existência humana, quer seja em prosa ou em verso. Palavras alojadas em metáforas ou em místicas reflexões, sem, contudo se ater a explicações, conforme assevera Lefreve (1980, p.121).

Heidegger nos certifica a respeito do poder comunicador dos "mananciais" das palavras. Ele elabora uma feliz analogia entre palavras, baldes e barris. Para ele:

As palavras não são simples vocábulos (Wörter), assim como baldes e barris dos quais extraímos um conteúdo existente. Elas são antes mananciais que o dizer (Sagen) perfura, mananciais que têm que ser encontrados e perfurados de novo, fáceis de obturar, mas que, de repente, brotam de onde menos se espera. Sem o retorno sempre renovado aos mananciais, permanecem vazios os baldes e os barris, ou têm, no mínimo, seu conteúdo estancado (inNUNES, 1986, p. 270).

Assim sendo, os escritores, na tentativa de dominar as palavras, devem dedicar-se, com afinco à essa renovação a que se refere Heidegger. Os mananciais, constantemente perfurados, devem ser retroalimentados fornecendo, de tal modo, novos subsídios, travestidos em semas, imagens, signos e sintaxes, tanto para a prosa quanto para os versos. Como um feedback à palavra, devem propiciar à ela o poder de falar e de se expressar, em sua capacidade impar de transfigurar a arte de narrar a vida pelas expressões dela mesma - a palavra e de seus interstícios, seus silêncios, seus intervalos, seus gestos e sua performatividade.

Das palavras amo todas. Elas são minhas ferramentas. Amo as que compõem a prosa. Amo, também, aquelas que compõem o verso. Essas integram a milagrosa linguagem do texto poético (as minhas favoritas). Palavras que agem conferindo voz ao silêncio das coisas, no intuito de (re)velar a essência da vida, da morte, da alegria, da tristeza, do sonho, do prazer, do sofrimento, do real, irreal e do imaginário. Palavras que exercem milagres, sob o olhar sensível do leitor, conforme assevera Domingos Carvalho da Silva. Para ele: "a poesia é acima de tudo um milagre, o milagre da emoção, o milagre da alma e o milagre daquela "alguma coisa" sem a qual a arte é inconcebível." (SILVA, D.C, 1989 p.85).

Escrevo por acreditar que a palavra grafada diminui a "febre de sentir", corroborando as palavras de Fernando Pessoa (2009, p. 290), quando confessa: "Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir: o que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações." (PESSOA, 2009, p. 29). Portanto, escrevo tendo em vista essas palavras de Pessoa, sem, contudo, perder o foco nas sábias expressões de Ezra Pound, quando afirma que a "grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível" (POUND, 2002 p.32).

Nesse contexto, tanto no que se refere a Pessoa, quanto a Pound, a inquietação que assola o escritor, que atormenta sua alma, antes da produção de um texto, só o abandonará, após o registro das palavras enclausuradas pelos sentimentos, emoções, fatos, narrativas, encontros e desencontros da vida. Com foco na linguagem, que agrega "significado até o máximo grau" (POUND, 2002 p.32), nós escritores, diminuímos a febre de sentir, para, logo em seguida, outra inquietação admoestarmos para novas investidas na palavra. E assim, o ciclo se retroalimenta, se fortalece e a palavra escrita se inscreve para além de nós. É assim que me sinto. É por isso que escrevo: para diminuir a "febre" e as inquietações de viver, de sentir e de existir.


Referências


Nota 01 Texto publicado na Antologia Porque escrevo / Ítalo Campos (org.) – Goiânia: Kelps, 2019. Págs. 45 a 50.

Nota 02 É escritora. Mestra em Letras e Críticas Literárias pela PUC-Goiás. Formou-se em Educação Física e Psicologia. É Presidenta da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás – Aflag e Sócia Titular e Vice – Presidenta do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. É filiada à UBE-GO e à Associação Nacional de Escritores - ANE.